8 de janeiro de 2011

Tristeza e eu ...



O menino era jovem ainda, mas pelo pouco que havia visto desse mundo ele ja tinha a sensação tão estranha de deslocamento que persegue tanto algumas pessoas independente da idade. Certa vez ele se encontrava no pátio da casa. Era um pátio bonito, com várias flores e uma varanda onde era possível se descansar em tardes ensolaradas durante o verão. Esse pátio era o mundo inteiro para aquele menino, ali ele vivia toda sorte de aventuras. Ali ele criava seu mundo, suas opiniões e seus valores. O dia estava nublado mas abafado, daqueles em que é impossível permanecer dentro de casa mas ao mesmo tempo a rua e o céu assutam com a possibilidade certeira de uma chuvarada abrupta. Foi quando o menino conheceu aquela menina, ela era pequena, provavelmente da mesma idade dele, tinha feições diferentes, de alguma forma eram estranhas, não eram como as das outras meninas que ele conhecia. Vestia um vestido espuído, azul celeste. O cabelo era escuro e possuia olhos acinzentados, apresentavam ao mesmo tempo inocência e um peso enormes. A menina estava ali, na sua frente, como uma criança tímida que assiste as brincadeiras sem coragem de perguntar se pode brincar junto. O menino então parou e a encarou fixamente, os enormes olhos castanhos fitavam a menina com uma soma de timidez e curiosidade. Então ela quebrou o silêncio:
    - Olá ... eu posso brincar com você?
O menino ainda estava um pouco assustado, mas se sentiu impossibilitado de negar tal pedido.
    - Sim, se você quiser. Mas quem é você? Qual o seu nome?
    - Meu nome é Tristeza, você não me conhece mesmo, mas quando passei e vi você brincando sozinho pensei que podíamos ser amigos.
    - Tá certo então...
Eles brincaram o resto do dia inteiro, e então, já a tardinha, a chuva começou a cair. Ambos correram para a varanda para se proteger como uma reação automática. Alguns segundos depois, olhando a chuva, a menina falou:
    - Preciso ir. Nos vemos amanhã?
O menino respondeu meio atônito:
    - Mas vai agora? Com essa chuvarada?
    - É, adoro a chuva, adoro olhar ela e caminhar nela. Acho que me faz bem. Mas e então? Nos vemos amanhã?
    - Hmmm, ta bom, a gente pode brincar amanhã então.
Eles se despediram, e durante toda aquela noite o menino não conseguiu parar de lembrar daquele dia tão estranho e daquela amiga tão estranha que havia conhecido.

No dia seguinte foi igual, e assim se sucedeu durante as semanas seguintes também. O menino ja contava as horas até que chegassem as tardes para que pudesse se manter junto de Tristeza. Era como se eles se conhecessem há muito tempo, e se tornaram grandes amigos por muito tempo. Ela fazia companhia a ele, era calada, e ele também, mas ambos pareciam se entender sem precisar muito das palavras. Riam juntos, dançavam juntos, imaginavam histórias estranhas juntos...

Assim os anos se passaram e chegou um dia em que Tristeza disse que deveria partir, o menino lembra bem desse dia também, era uma tarde de domingo, o sol de verão era quente e eles se encontravam sentados em baixo de uma enorme árvore saboreando a brisa que matava o calor. Tristeza vestia azul, o menino nunca entendera bem esse gosto dela pela cor azul, achava que era uma cor de garotos e não de garotas. Então ela quebrou o silêncio como muitas vezes já fizera anteriormente:
    - Preciso ir embora.
    - Tão cedo? E volta amanhã?
    - Não, acho que não volto mais, ao menos por algum tempo, não tenho como saber.
    - Mas por quê? Vai se mudar?
    - Mais ou menos, mas quem sabe a gente se fala, outro dia, pode demorar, ou não.
Ela então lhe deu um beijo no rosto e saiu, pulando o pequeno muro da frente da casa. O garoto ficou olhando enquanto suas roupas e seus cabelos voavam ao vento, ela então virou para trás e lhe acenou com um enorme sorriso no rosto, os olhos cinzentos novamente emanando inocência e peso. O menino quis chorar sem nem mesmo saber a razão, mas nenhuma lágrima rolou em seu rosto.

Muito tempo se passou e o menino se tornou um homem. Conheceu então uma mulher incrível, que parecia lhe completar, eram jovens entrando na vida adulta e tinham o mundo a seus pés, gostavam das mesmas coisas, apreciavam a solidão e um bom livro. A mansidão do campo e a vida mais lenta comparada a correria da cidade grande. Foram morar no campo. Tinham uma casa com um jardim bonito, o homem fazia questão de cuidar dele, de certa forma o lembrava da sua infância. Havia também na entrada uma varanda grande como a de sua infância. Certo dia estavam ambos caminhando pelo jardim e as nuvens se fecharam sem dar sinal, uma chuva forte começou a cair e o homem correu direto para a varanda a fim de se proteger da água, mas não a mulher, ela continuou ali caminhando calmamente. Ele então perguntou a ela enquanto se aproximava:
    - Não vai vir pra cá não? Desse jeito vai ficar enxarcada.
    - Vou ficar aqui só mais um pouquinho, adoro a chuva, a calma que ela me traz, adoro caminhar sentido os pingos.
Foi então que ele notou aquele brilho tão lindo nos olhos daquela mulher, olhos tão acinzentados que lhe davam uma sentimento de nostalgia e saudade. No final das contas o homem não lembrava quanto tempo mais havia passado com aquela mulher. Não conseguia nem mais dizer com certeza se ela havia algum dia deixado de fato de estar do seu lado. Por tantas situações, por épocas inteiras de sua vida, Tristeza havia sido sua grande companheira. A verdade é que muitas vezes mais, na sua vida, ele recebeu as visitas de Tristeza, mas com o tempo ele foi mais e mais se acostumando com ela, e as visitas foram ficando mais e mais raras. Aquele homem nunca mais se envolveu com Tristeza, ela passou a ser uma antiga conhecida, por vezes uma fiel confidente, mas nunca mais um amor, Tristeza passou a ser testemunha de descobertas e feclidades na vida daquele homem e, mesmo que o tenha conquistado quando era apenas um garotinho solitário ela não mais possuia controle da vida dele. Porém é impossível negar que toda vez em que ia se despedir ele não conseguia deixar de notar em seu rosto aquele sorriso tão belo e aqueles olhos cinzentos tão inocentes e profundos.


                                                                              22/01/2010 - 04:53

3 comentários:

WaL disse...

as vezes acho que certas coisas e pessoas ficarão conosco para sempre...ahh e eu vou ter que concordar com o Amarante :D saudadee :*

=)Domino SimmonS...{Ana} disse...

mtoo...lindu m fez pensar na minha solidão de infancia na qual jamais me esqueci, pensei em tantas coisas, sem ao menos parar me uma apenas...
;) parabénsss.. mto lindu!!

jandora disse...

"podia ser felicidade com tristeza, mas é só tristeza". primeiro livro do kerouac
quando me mandou este texto que tenho até hoje no meu pc, achei muito sugestivo o nome da personageme foi o primeiro livro do Kerouac que li comprei tbm...coisa boa te ler guri