31 de dezembro de 2010

As Razões ...


Naquele amanhacer o sol era completo, dominava a paisagem de forma vigorosa e altiva. Ahhh, a beleza daquele sol. Ele acabara de despontar e seu pensamento quente alcançava o planeta de forma a espantar um puco da frieza da noite, deixando como pistas e provas disso apenas umas gotas soltas por cima da relva e dos telhados das casas. Eu sentei na varanda, já com um pouco de fome por causa do horário, a varanda da casa de madeira era curta, simples, nada luxuoso, mas servia perfeitamente bem para que se pudesse desfrutar de alguns minutos sozinho apreciando a naturalidade com que aquele circulo amarelo crescia e envolvia todas as coisas que tocava. Eu meditava, parado... ah que bela mentira, eu nunca havia conseguido meditar, eu já ahavia tentado, mas o fato de bloquear a minha mente de pensamentos parecia impossível, eu apenas pensava no meu corpo ali, naquela posição desconfortável, as juntas rangendo e a dorzinha na base das costas me impedindo de ficar 5 segundos que fossem sem pensar num bom colchonete onde eu pudesse me deitar.

- É meu velho, não vai ser hoje.

Falei alto na esperança de que algum passarinho azul pudesse me ouvir e responder algo, mas tudo que recebi de resposta foi o silêncio mais calmante que já havia sentido. Encarei de frente aquela montanha, sapecada de coníferas em alguns locais. Um gigante silencioso que por semanas ficava ali, sentado como um rei me vigiando e aparentemente julgando cada um de minhas ações, não sabia bem por que tinha essa sensação tão estranha a respeito daquela montanha, Kerouac certa vez disse que pare ele as montanhas eram como enormes budas que ficavam ali meditando por milênios, eu via aquela como um rei de outrora, esquecido já pelas pessoas do hoje ele se sentava lá e olhava para baixo o seu reino já tão diferente do que havia sido. Vi la embaixo o riacho que embalava desembestado entre as rochas, como um criança em direção ao abraço da mãe. Me lembrei da primeira vez que vi aquele riacho. O dia era bem parecido com o de hoje, mas já passava do meio da tarde, eu subia aqui pela primeira vez na minha vida, e ao ver aquela água tão bela e ouvir o burburinho do seu incessante correr, eu tive que me sentar por ali, a mochila pesava nas costas e a camisa suada grudava no meu corpo, não tive dúvidas em me livrar dessas roupas incômodas e me deitar na grama olhando para o céu. O meu companheiro de todas as manhãs também se encontrava lá, brilhava a ponto de ser impossível encará-lo por mais de meio segundo sem lacrimejar, e eu de fato não sei se lacrimejava pela dor nos olhos ou por alguma outra dor, tanto fazia para mim. As nuvens criavam uns tipos estranhos de desenhos abstratos e em meio àquele vai e vem de sons e cores, quando eu já tinha perdido a conta das horas que havia passado deitado ali, eu vi de longe um pássaro azul voando sozinho, não sei se ia para o sul ou para o norte, o que me chamou a atenção foi que estava sozinho, encarando o vento gelado da montanha sem nenhuma companhia.

Acabei notando que aquele tom rosado do fim de tarde já tomava conta do cenário. E entendi isso como um sinal para seguir em frente, dali foram alguns segundos para chegar até a cabana de madeira. O lugar estava sujo e aparentava não ser utilizado por muito tempo, uma simpática aranha criava o seu próprio reino de teias em plena varanda e aparentemente a lareira já havia servido de abrigo para algum outro tipo de animal. Eu resolvi coletar lenha suficiente para passar aquela noite em claro. Troquei de roupa e acabei retornando já com a escuridão da noite totalmente envolvente. Com o fogo esquentando as extremidades por dentro e um bom chá esquentando o estômago pude passar aquela noite inteira, entre momentos de lucidez tremenda, lendo obras de meus autores favoritos, e outros de torpor completo. A sensação de solidão e isolamento, quando se está de fato isolado e só, não é a mesma que eu sentia no meio da grande cidade. Lá eu era viciado, viciado em tudo que havia em minha volta, de fato eu sentia o cheiro ruim e podre de tudo que me rodeava, mas nao conseguia evitar chafurdar naquela lama nem que fosse um pouquinho, e o vazio, o vazio acompanhava cada ação que eu imaginava ser tão bem pensada e coerente com as ideologias mais estúpidas. Aqui não, aqui foi diferente, desde o momento em que eu vi esse lugar, o isolamento ganhou uma perspectiva totalmente nova, totalmente bela. O riacho me lembrava, ao correr sem parar, o conceito de evolução infindável, independente do meio em que se está, eu o via driblar as rochas com tamanha facilidade, e sabia ao mesmo tempo que a cada manhã aquele não era o mesmo que corria ali, que aquela água era sempre renovada.

Após essa pequena lembrança eu volto para esse momento pela manhã, eu noto que por não saber exatamente o que buscar, esse lugar se tornou extremamente importante, ele me deu tantas coisas novas, relembrando um pouco do que dizia Thoreau eu noto que criei meu próprio caminho até o local de onde eu busco água, noto que a relva mais baixa, o capim inexistente ali demosntra claramente o meu esforço diário em seguir uma trilha que talvez ninguém mais já tivesse seguido, foram os meus passos, unicamente eles que fizeram com que aquele chão se abrisse em um pequeno caminho. Sinto que esse lugar me deu não necessáriamente paz de espírito, ou nem mesmo momentos de grande iluminação, mas oportunidades de pensar constantemente. Nunca busquei aqui respostas, afinal só busca respostas quem tem perguntas, e eu me sentia tão perdidamente ignorante naquela época que eu não sabia quais fazer. Por fim eu acho que recebi muito mais do que isso, recebi algumas semanas de uma felicidade sem razões, algumas semanas de uma vida que eu desconhecia, ganhei a sensação de que o tempo que despendi nesse lugar não me foi tirado, pelo contrário, me foi dado de volta.

Com a mochila nas costas e a mesma camisa xadrez que usava na primeira vez que vi aquele riacho, eu comecei a minha caminhada, agora dando às costas à montanha, ao rei que se tornou meu vigia, não tinha em minha mente nem a dúvida e nem a certeza se algum dia iria voltar ali. Tal questionamento não se fazia necessário naquele momento. Eu pensava apenas em driblar também aquelas pedras, com minhas passadas longas eu acompanhei o riacho borbulhante, buscando desembocar até o meio dia em algum lugar plano. E seguir dali para a cidade mais próxima, sem pensar no cheiro. O sol me acompanhava, e eu sentia que um belo dia estava por vir, eu lembrava que esse mesmo sol esquentava tanto aquele belo lugar do qual eu saía quanto tantos outros lugares não tão belos que existem por todos os cantos desse mundo. Ao olhar mais uma vez para ele eu lacrimejei novamente, sorrindo, dessa vez eu tive certeza das razões de tê-lo feito.


                                                                       12/04/2010 - 23:15

3 comentários:

WaL disse...

lágrimas aqui! at laranjal pensando nessas palavras...bjosss feliz ano novo!

=)Domino SimmonS...{Ana} disse...

Pefeito..... **
parabéns fez esta aki refletir muitooo...sobre muitasss coisass....
rs bjos

=)Domino SimmonS...{Ana} disse...

de nada.. obrigada pelo seu lindu comentarios rsrs
qualuqer coisa a gente se fala pra troca ideias rsrs
msn: anaelisa-domino@hotmail.com tu escreve mto bem!! Parabénsss.. bjos Ana